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Sounds perfect Wahhhh, I don’t wanna
Como uma vida inteira, detestei aquelas ruas que inalavam o dia anterior na incumbência de lamentar o próximo. As ruas… mesmas ruas cariadas que hoje ainda são. Eu vivia sobre elas na condição de inimigo morto. Polvilhado com sangue, jamais consegui...

Como uma vida inteira, detestei aquelas ruas que inalavam o dia anterior na incumbência de lamentar o próximo. As ruas… mesmas ruas cariadas que hoje ainda são. Eu vivia sobre elas na condição de inimigo morto. Polvilhado com sangue, jamais consegui desvencilhar o corpo das calçadas, cortesãs do meu passado.

Havia a infância, mas isso era tudo. Um império de hematomas sobre as vias de cimento. Havia o suor, o asfalto escaldante, o pequeno Coliseu de pernas que se formava ao meu redor, o ódio seguido das lágrimas que me faltavam e as nuvens sujas que, lá de cima, ocupadas demais em meio as suas inaptidões industriais, observavam o dia não passar impune.

No verão, as tardes eram tão quentes e a vida já tão dura que chovia gente pela janela. Pouco a pouco, a vizinhança se revelava para além de sua hostilidade mútua e despencava por aí como um jarro de natureza frágil no decorrer dos andares. Era o que éramos - pois à sombra não se escondia nada e ninguém vivia em paz com seus propósitos -, meras flores vestidas em jarros acidentais que na mão dos outros se espatifavam pontual e diariamente pelas calçadas.

(Notícias de um velho fiasco)
Ele acordou suficientemente cedo para que chegasse à porta da Biblioteca Municipal antes mesmo do primeiro funcionário aparecer.
“Dê-me as notícias de meu velho fiasco. Vamos!”, dizia num perfeito tom que preenchia de...

(Notícias de um velho fiasco)

Ele acordou suficientemente cedo para que chegasse à porta da Biblioteca Municipal antes mesmo do primeiro funcionário aparecer.

“Dê-me as notícias de meu velho fiasco. Vamos!”, dizia num perfeito tom que preenchia de uma angústia calculada as lacunas da úmida manhã.

“Noite de vinte e oito de setembro de mil novecentos e cinquenta e quatro” prosseguiu, “estreia de Puberdades de Eleonor, página 4, Jornal da Vila, depressa homem!”.

"Muito bom dia para o senhor, Senhor Serafim Correia”, disse o funcionário ao abrir a porta principal da biblioteca para o dia vinte e oito de setembro de mil novecentos e setenta e quatro.

“Há vinte anos, há exatos vinte anos, Senhor Torres…”

"Sim senhor, há exatos vinte anos”, respondeu o homem num sublinho de desatenção. “Espera só um momentinho pra eu poder acender as luzes pro senhor”.

“Senhor Torres, estou desde às oito e meia sob esta irritante garoa, a tolerar meus próprios pés na companhia desta árvore de maturidade fétida cujos frutos já nasceram para ser podres”.

“Os anos anteriores também foram chuvosos, lembra?”

“Que me interessa as coincidências inúteis? Ande logo com isso!”

“Pois não. Só falei porque eu achava que o senhor tinha gosto por lembrança ruim” retrucou Torres, contorcendo-se internamente para fazer calar as pretensões de sua ironia.

“Ora esta sua insolência ainda lhe fará perder o cargo!”, gritou Correia ao tirar da manga uma de suas conhecidas maldições proféticas.

“Pode entrar Senhor Correia, por favor” permitiu o funcionário, abrindo passagem para mais um estranho ritual que se repetia pontual e anualmente a partir do fiasco que há vinte anos se estabelecera com a estreia de Puberdades de Eleonor no falecido Teatro Marinha.

Permanecem desconhecidos os motivos que, agarrados às entranhas, moviam suas incessantes buscas pelo noticiário de duas décadas atrás guardados nas pastas semi-empoeiradas da biblioteca. O que se sabe, contudo, estava presente de modo latente em detalhes como a pequena pilha de jornais previamente separada por Torres no dia anterior à visita de Serafim Correia, ato que lhe poupava do trabalho de procurá-los sob a influência dos ânimos de um visitante que transpirava indomável inquietação.

Torres pôs os jornais na mesa em que sentava Serafim Correia e rapidamente deixou o local da sala de leitura, de modo a desaparecer pelo corredor de acesso restrito a funcionários. Irrelevantes, as horas passariam sem o pudor do previsível durante a tarefa na qual Serafim Correia se auto-impunha: ler e reler incansavelmente as palavras dos críticos a respeito de sua obra naquele fatídico ano de um vinte e oito de setembro.

Lia e comentava em voz alta fragmentos aleatórios de notícias como quem condena a si mesmo sem qualquer tipo de prova:

A cena do isqueiro de ´Puberdades de Eleonor´ entra para a história como o momento mais triste e perturbador de nosso teatro. Eleonor Rezende, assolada pela cólera de uma maternidade desonrada, decide queimar as cartas do difamado Antunes César. O fogo responde e fecham-se as cortinas do Teatro Marinha. Pela última vez.

“Atuação sublime! Monólogo esplêndido” trovejava em resposta. A voz embargara e os olhos procuraram refúgio em outro parágrafo:

´Puberdades de Eleonor´ é a peça mais cara que já existiu. Fora a produção que ressuscita amadores já consagrados e os caprichos involuntários da autoria e direção de Serafim Correia Lopes, o espetáculo atinge cifras de valores inestimáveis ao custar um teatro inteiro e a vida de dezenas de seus espectadores.

“Abutres de encomenda! Imbecis sem aposentadoria! Moram no casulo da escrivaninha e só saem na ocasião da fatalidade! Covardes!” O momento confundia as lágrimas e a saliva na quantidade que temperava as contínuas explosões de movimentos desgovernados. O juízo, contudo, permanecia. Ordenou virar a página seguinte:

Eleonor Rezende, nossa heroína flamejante não terá mais de se ocupar com os dissabores da puberdade. Tudo virou fumaça naquele triste fim de tarde do Teatro Marinha. Faço do temporal que se seguiu as lágrimas de nosso luto.

Tomado pela dor, Serafim Correia levantou-se e caminhou lentamente em direção à janela da biblioteca. Percorreu um olhar vagaroso pela paisagem que cedia lugar à intensa chuva que caía sobre a cidade naquele instante e exclamou a quem passasse:

“Coincidência! Uma coincidência inútil!”

Estudou estudou até entender por que o trocador tinha unhas de mulher e por um momento compreendeu o suficiente sobre a vida de quem não se conhece.
Quis saber então por que Copacabana não tem fim, para os pés de quem anda e no interior desses ônibus...

Estudou estudou até entender por que o trocador tinha unhas de mulher e por um momento compreendeu o suficiente sobre a vida de quem não se conhece.

Quis saber então por que Copacabana não tem fim, para os pés de quem anda e no interior desses ônibus desgovernados.

Seus estudos inéditos revelam a influência dos canteiros de obras no sorriso das crianças, a relação de parentesco entre os postes, bem como a razão pela qual a grande maioria dos pombos urbanos necessita ter a vida ameaçada para que se desloquem com relevância no tempo e no espaço. Neste último caso, identificou comportamento similar no trânsito das cidades e partiu para investigação mais detalhada a respeito do fenômeno no qual certas pessoas se confundem com as calçadas e outras, por sua vez, caminham simplesmente sobre elas, numa pressa que os relógios muitas vezes não acompanham. 

https://soundcloud.com/user2040569/estudou

Deixe que os jornais desafinem as notícias
e que o sol enrugue de dor a planície do hemisfério,
que as sombras desistam da matéria
e que se criem as idéias bobas para logo se tornarem óbvias,
que a manhã desenvolva seus transtornos durante a...

Deixe que os jornais desafinem as notícias

e que o sol enrugue de dor a planície do hemisfério, 

que as sombras desistam da matéria

e que se criem as idéias bobas para logo se tornarem óbvias,

que a manhã desenvolva seus transtornos durante a madrugada 

e que se deposite de uma vez sobre as suas costas

essa crosta de rancor, herança dos seus filhos.

CARTA ÀS GAVETAS
(…)
Teus lampejos, abortados pelo cansaço, nada mais significam fora de uma lógica familiar insepulta e teus impulsos, que jamais se ofenderam, não sabem o que é permanecer calado, na frequência do inominável.
Quem cansou de explorar...

CARTA ÀS GAVETAS

(…)

Teus lampejos, abortados pelo cansaço, nada mais significam fora de uma lógica familiar insepulta e teus impulsos, que jamais se ofenderam, não sabem o que é permanecer calado, na frequência do inominável.

Quem cansou de explorar teus domínios, sem ao menos conhecê-los, agora sabe que razão, perdão ou culpa não torturam mais os acontecimentos.

O tempo transcendeu todos os mistérios e não há coragem que nos diga o que fazer.